
Sempre que viajamos há muito a que se aprender com moradores locais de onde visitamos. Na troca constante de conhecimento, nós somos os grandes privilegiados e beneficiados com a cultura popular. Numa destas visitas durante este final de semana, numa cidadezinha no interior do Pará, uma senhora de aparência frágil, voz embaraçada, mas muito fraterna, contribuiu com sua experiência de vida. Ela cumprimenta a todos com um aconchegante abraço e um beijo, em sua conversa caipira logo conta sobre um derrame que lhe acometera, descrevendo inclusive com gestuais a forma decadente que este mal lhe tomou seu corpo e levou suas forças, como a morte sorrateira surrupiando sua alma. A dramatização seria muito cômica senão fosse pura verdade, mas, o mais surpreendente foi quando ela disse com muita propriedade o nome do remédio que a curara, muito tímida e receosa: a maconha.
Minha mãe então completou dizendo que minha ‘Vó’, não a biológica, mas de consideração, única que tive e de grande estima, sempre fazia cigarros da ‘mamoninha’ que cultivava no próprio quintal quando sentia falta de ar, aquilo também era terapêutico. A mamoninha, claro, em época que não havia grande mídia para sua divulgação, época também em que o governo não a combatia tão ferozmente como hoje, lógico, era a maconha.
O mais cômico de tudo isso, é a enorme dificuldade que a senhora nos relatava de encontrar o seu remédio absolutamente natural. E o que dizer de minha ‘Vó’? Será que deveríamos enquadrá-la no art. 33 da lei de tráfico de entorpecentes (lei 11.343/2006) por plantar a erva para o seu bem estar? Logo eu fico a imaginar e a indagar se há interesses nefastos por conta da proibição deste produto da natureza, do combate, da sua criminalização. Eu poderia fazer outra indagação pertinente: Será que enquanto a religião atrofia os músculos do cérebro, será que a erva liberta (exclamação) ? Apenas indagações, meras indagações, longe de qualquer afirmação. Em um país ‘democrático’ como o nosso, indagações são mais oportunas, uma defesa prévia que nossa língua portuguesa nos proporciona.
Minha Vó faleceu há pelo menos uma década, a senhorinha que conheci, continua usando o chá da maconha para que tenha, ao seu modo de ver, uma vida melhor, apesar de nenhuma comprovação científica de suas qualidades medicinais.