terça-feira, 2 de julho de 2019

Não é sobre Cuba, mas sobre um sorriso


Havana, Cuba, Março de 2018....

Decidi conhecer um novo país, uma cultura diferente da nossa, uma ilha do continente central que vive num regime ditatorial desde o final dos anos 50 após a vitória dos irmãos Fidel sobre o regime de Fulgêncio Batista. Sim, Cuba, é pra lá que eu fui fazer minha primeira viagem internacional, até porque Paraguai e um pisão na Argentina não contabilizei como 'viagem internacional' rs!
O que antes era o quintal dos Norte-Americanos, a Las Vegas de outrora se transformou num país que desperta o fascínio a quem se interessa por história viva, e a ilha de Fidel é um dos poucos países do planeta Terra que parou no tempo, lá na revolução de 1959, com seus carros daquela época, o tempo ali parece ter estacionado.
A ilha caribenha localizada a 150 quilômetros de Miami-USA, um lugar extraordinário. Mas não estou aqui para falar de Cuba, mas sim de um sorriso.
Quando a gente assiste aos fáceis filmes de comédia romântica, a gente (solteiro ou não) sempre se coloca no lugar do protagonista, que sempre encontra o amor da vida nos lugares mais distintos possíveis e nas situações mais desafiadoras e inusitadas, e a gente se pergunta, quando será a nossa vez? Será na farmácia, na padaria, na fila do cinema ou no Tinder? Ou já encontramos, nos alto sabotamos e continuamos na busca incansável por dividir um Netflix no domingo tedioso.
Na terceira noite em Havana saí para jantar, andando pelas vielas envolta por casarões antigos antes ocupados pelos ricos e nobres, hoje por trabalhadores e trabalhadoras cubanas localizados a poucos metros do Museu da Revolução, escolhi um lugar aconchegantes, mesas postas à rua, e um nome sugestivo La Ancla (A âncora), ali experimentei pela primeira vez a tão falada por quem visita a costa brasileira, lagosta, realmente, um prato excepcional.
Mas não estou aqui para falar do país, nem do prato, mas sim, de um sorriso. A cerveja LaBucaneiro vendida a três e cinquenta dólares, lá a moeda usada pelos turistas é chamada de CUC – Unidade de Conversão Cubana que tem o valor de um por um dólar. Essa mesma cerveja é facilmente encontrada durante o dia nos bares mais simples da velha Havana por um e cinquenta Cucs, embora os moradores da ilha prefiram a cerveja Cristal, por ser mais leve, durante meus dez dias por lá quase sempre preferi a LaBucaneiro. Mas não estou aqui pra falar do país, do prato, muito menos da cerveja, mas sim de um sorriso. Ainda mais que lá a tradição é o Rum, um destilado sem igual.
Ela veio me atender sorridente, eu usando do meu portunhol horrível para me comunicar, mas até que nos entendemos bem, a tatuagem da torre Eiffel no seu antebraço me chamou a atenção, você é fã de Paris? Fiz a pergunta mais óbvia e ridícula que poderia, mas havia de iniciar a conversa de alguma forma, não me julguem! Rs. Sim, simpaticamente me respondeu. Faço faculdade de idiomas (Relações Internacional, ou algo nesse sentido) e lá estudamos francês e inglês, além do idioma nativo, claro. Era uma garçonete com um sorriso encantador, daqueles que sorriem com os olhos, a pele morena da cor característica de uma genuína latina, cabelos lisos, pequena, simpática, me apaixonei, me apaixono rápido, só não mais rápido quanto me desapaixono, rs!
Naquela noite havia poucas mesas a serem atendidas, ela concentrou quase que toda sua atenção à minha, às vezes nos pegávamos trocando olhares, me senti o verdadeiro protagonista de um filme de romance americano. Não perderia a oportunidade de convidá-la pra sair, aquela talvez seria a última vez que a veria, e conhecemos bem que a vergonha de expressar o que o coração sente nos faz perder oportunidades divinas que nos são dadas e não são agarradas, ah, não! Estou num outro país, não tenho nada a perder, pensei.
Vou dar uma dica valiosa aos jovens aprendizes da arte da conquista, não que eu entenda bolhufas, mas essa vocês tem que aprender: nunca, absolutamente nunca, jamais, em hipótese alguma, pergunte a uma mulher que te despertou algum interesse e não usa qualquer aliança em nenhuma das mãos se ela tem namorado, pois ela pode até não ter, mas vai responder que sim e encerrar ali algo que poderia render o que os dois se permitissem. Deixe pra outra oportunidade, quando já tiver dominado a situação, mesmo que se ela tiver e se interessou por você, ela vai omitir essa informação, quem sabe a pessoa esteja vivendo um relacionamento falido, algo sem emoção, você não tem culpa de ter chegado atrasado, um passo de cada vez, a vida é algo a ser construído, nunca uma história acabada e sem reticências.
Então perguntei qual horário que seu expediente terminaria e se poderíamos sair logo após para que ela pudesse me apresentar sua bela cidade a um brasileiro fascinado pelo seu país, ela de pronto me respondeu de que fecharia cedo, lá pelas 23h30 em razão do fraco movimento do dia, e que sim, poderia sim sair. Ponto! Ali permaneci bebendo minha Bucanero todo feliz, até ajudei a guardar as cadeiras pesadas de ferro maciço, as mais pesadas ficavam presas a uma corrente pois eram impossíveis de serem levadas para dentro de tão pesadas.
Saímos já próximo da meia noite, eu, ela e amiga dela, quando as duas falavam entre si, poderiam estar me xingando que eu não entendia absolutamente nada, mas quando ela falava calmamente e gesticulando bastante, eu compreendia perfeitamente e também tinha o inglês que ela falava muito bem e eu arranhava.
Fomos a um barzinho ali próximo, clipes de música cubana, música latina de verdade, o ritmo regaton dominava a noite, era um barzinho aconchegante com sofás confortáveis, gente cubana feliz, bebida barata, danças sensuais e muita conversa e música.
E a conversa embalada ao bom e velho portunhol, inglês e mímicas seguia a todo vapor, aguardando o momento certo de sentir o beijo da linda morena do sorriso lindo.
Alí estava eu vivendo uma paixão em outro país como nos filmes que mencionei no início, ali estávamos por volta das quatro da madrugada andando pelas vielas de Havana fazendo selfies e registrando aquele momento com um celular caríssimo, mas ela me tranqüilizou, aqui não há violência e nem crime, foi quando como bom brasileiro lhe disse, pois no Brasil fazer isso a esse horário em qualquer lugar é praticamente um pedido de assalto.
Paguei o seu transporte de volta pra sua casa, um carro provavelmente da década de 50, de cor azul, compartilhado por várias pessoas. No dia seguinte estaria em viagem para Varadero, a 150km de Havana, o paraíso caribenho de Cuba, e só retornaria após cinco dias, ela prometeu que sairíamos quando eu retornasse.
Retornei a Havana após conhecer o azul mais lindo que já vi na vida travestido de mar de Varadero. Tinha poucas horas em Havana, pois o vôo de retorno para o Brasil estava marcado para o dia seguinte.
Saímos, mais uma e a última vez, bebemos, conversamos, sorrimos, devo ter retornado embriagado por volta das 05h, o vôo era as 07h, capotei, meu amigo de viagem me acordou, levantei atordoado e retornei ao Brasil com a imagem daquele lindo sorriso na cabeça.
Ela tinha me passado seu nome, lhe adicionei numa rede social, não para minha surpresa, mas a foto do seu perfil era com seu namorado! Entenderam agora porque nunca perguntar se há uma pessoa?
Trocamos poucas palavras pela rede social, até porque lá há muita dificuldade de acesso a internet ainda, não foi paixão, nem amor, nem romance, foi mais uma aventura que todos merecemos viver, afinal somos feitos de histórias, e isso é que vale a pena.

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